terça-feira, 11 de março de 2014

As eólicas e o monstro eléctrico

Mão amiga fez-me chegar cópia do artigo que o Engº Mira Amaral publicou no Expresso deste último sábado com o título que tomei emprestado (acrescentado de uma consoante "muda") para este post. É mais um elucidativo exercício de recapitulação da matéria dada: a insanidade da política seguida entre nós no domínio da produção de energia eléctrica e, em particular, do seu pilar eólico, exemplo acabado da pior conjugação possível - o favorecimento político de uma agenda ambiental politicamente correcta e economicamente desastrosa com o casamento de conveniência com as empresas [e bancos...] de "regime", na feliz expressão de Henrique Neto.

Introduzi dois links no texto original que, lamentavelmente, se manifesta em "acordês". Um deles, remete para um documento da ERSE que só muito, muito raramente surge à "superfície" e que todavia é essencial para compreender por que sobe sistematicamente o preço da electricidade (e o défice tarifário...); o outro, que fiquei a conhecer pela referência do Engº Mira Amaral, aponta para uma apresentação que o Prof. Clemente Nunes levou a cabo na Ordem dos Engenheiros, no passado mês de Fevereiro, intitulada "Política Energética e Competitividade Económica em Portugal: Uma Análise Estratégica" que convido o leitor, com veemência, a ler com a devida atenção.
Engº Luís Mira Amaral

As eólicas e o monstro elétrico

As centrais eólicas têm um problema: a intermitência do vento. Qualquer pessoa percebe que se o vento só sopra 25% do tempo, não é possível abastecer o nosso país só com eólicas! E sendo máquinas de capital intensivo que só trabalham 25% do tempo, qualquer empresário iria à falência se trabalhasse nessas condições...

Engº Mira Amaral
Uma rede elétrica, mesmo sem estas tecnologias intermitentes, tem sempre alguma geração de reserva para suprir a falha de geradores em serviço. Por isso, até 2000 Mw de eólica instalada, o nosso sistema acomodava essa capacidade através da reserva excedentária existente e da capacidade de armazenagem nas albufeiras.

Mas, com a capacidade instalada a chegar aos 4630 Mw, é preciso novas barragens para acumular a energia em excesso produzida durante a noite e centrais térmicas em regime de subutilização durante o dia só para suprirem a falta de vento. Como as térmicas têm que estar sempre preaquecidas para entrarem imediatamente em serviço quando não há vento, isso implica gasto de combustível para esse preaquecimento sem estarem a produzir eletricidade. E ainda temos o desgaste do material no para-arranca...

Então, quanto mais eólica instalada, mais energia em excesso durante a noite a necessitar de mais bombagem e mais térmicas de dia subutilizadas a funcionarem como back-up das eólicas, ou seja, brutais custos fixos dessas centrais.

Mexia diz, e bem, que nos custos da eletricidade cinquenta por cento são custos de capital, mas foi ele o orientador da criação do monstro elétrico...


O consumidor paga sempre a energia produzida nas eólicas, vindo a diferença entre a produção e o consumo nos famosos custos de interesse geral (CIEG) e também paga sempre os custos fixos das centrais da EDP, mesmo que não produzam, através dos famosos CMEC.

Quando há vento e há chuva e as albufeiras ficam cheias, não se podendo armazenar a energia em excesso das eólicas, ela então é exportada para Espanha, a preço zero, pois os espanhóis também não precisam dela! É a tempestade perfeita!

Prof. Clemente Nunes
O professor Clemente Nunes calculou então no IST os sobrecustos imputados às eólicas devido às perdas na bombagem (sete euros/Mwh), aos custos fixos das centrais de bombagem dos períodos em que armazenam à noite a água e a turbinam de dia (21 euros/Mwh) e aos custos fixos das centrais térmicas de back-up durante o dia às eólicas (34 euros Mwh).

Temos assim que somar à tarifa das eólicas, que segundo a ERSE foi de 102 euros/Mwh em 2013, mais 62 euros/Mwh de sobrecustos, levando-nos a um preço efectivo da eólica de 164 Mwh! [Apenas 134 €/Mwh para as novas centrais eólicas, devido à diminuição entretanto ocorrida nas tarifas feed-in]

Aqui não estão considerados nem as ineficiências no uso das térmicas nem os custos de ligação dos parques eólicos e das novas centrais de bombagem à rede de transporte, propondo agora a ERSE investimentos de mais de 450 milhões de euros para isto!

4 comentários:

Miguel Loureiro disse...

E quem paga os "investimentos" das eólicas à EDP (empresa privada e nacional chinesa) não somos nós, nos 10% na faturação da eletricidade?

BC disse...

Infelizmente as energias renováveis em Portugal extravasaram a aposta política e tornaram-se numa crença religiosa à conta de tanta propaganda. E como em relação a todas as crenças religiosas não é a argumentação racional que demove os crentes. Acho que vai ter de ser como em Espanha, eixar o défice tarifário engordar até se tornar indisfarçável.

floribundus disse...

este 'dejecto do Romano império' (Jorge de Sena)
«vai de vento em proa»

Antonio Cristovao disse...

vale a pena acrescentar que o vento é gratuito - sendo o valor apontado um "suponhamos" que podemos subir ou descer conforma as conveniencias.
Segundo a Alemanha pressiona os outros chefes de governo(serão mesmo chefes?)para a necessidade imperiosa das grandes redes transeuropeias de energia que viabilizariam a enegia dos sul ada peniNsula e n. de africa doutro modo. Resumindo engenharias financeiras/contabilisticas que podem dar noveforenada ou o resto que se pretenda.