sábado, 16 de dezembro de 2017

Desafios de contexto















A propósito desta entrada no Insurgente, leio o gráfico nela presente e, literalmente a seguir, deparo com estas citações. Tão a propósito que não resisti ao excesso.
Não conhecendo a posição dos Insurgentes (tanto de André Azevedo Alves, como de MAL) acerca destes tópicos, não deixo de considerar estranho o título escolhido. Que servirá?

Citação do dia (201)

"Fora do manicómio em que saltita boa parte da “opinião”, o problema da Raríssimas não é ser “particular” na designação, nos estatutos e na teoria: é não ser particular na prática."

Alberto Gonçalves, Observador, 16 de Dezembro de 2017

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Ideias e tecnologias disruptivas



Alguns artigos acerca da temática em língua portuguesa. O primeiro, mais analítico, de Ricardo Arroja. O segundo, menos consistente, porque parece ignorar o mais importante destas tecnologias: permitem mudanças maiores em sectores monopolizados ou cartelizados. E se possuem riscos (ou estão associadas a manias), aquelas vantagens não são de somenos.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Radar


Não sei se será uma tentativa para experimentar algo maior, mas o governo da Coreia do Sul passará a "aliviar" as dívidas dos contribuintes menos abonados. Já existe "dotação orçamental" e tem o nome de "Fundo da Felicidade".

Isto é sério. E há um burocrata que defende esta pérola destacando-a como uma característica, prepare-se o leitor, do "capitalismo confuciano". Assim. Ora veja.

Será que estes exotismos não passam disso mesmo? Ou serão ensaios para um "Jubileu da dívida" mais alargado?

sábado, 2 de dezembro de 2017

Cogitações (10)

Um sinal curioso (e perigoso para quem participa, julgo) do estado dos mercados e índices bolsistas é a evolução do preço da moeda criptográfica Bitcoin. Para além da dificuldade em determinar com precisão a que classe de bens pertence, a Bitcoin e o seu preço ilustram bem a natureza do movimento actual dos mercados.

Que outros activos ou investimentos têm semelhantes linhas de progressão do seu preço? Historicamente, conhecem-se alguns casos, mas o final não foi bonito. Muito se pode dizer acerca das razões que podem estar por detrás destes movimentos no preço (tendo ultrapassado os 9 mil euros ou 11 mil dólares na passada semana), ou das respostas que os governos darão a tais "veículos" especulativos. No último ano, por exemplo, na China tornou-se claro que seria um óptimo meio de mobilizar capital para o exterior, escapando às recentes campanhas de Xi para controlar o país, a moeda e os mercados.

O que gostava de sublinhar aqui, a par com esta introdução, é a qualidade deste veículo como solução, como resposta difundida até pelos meios e autores mais técnicos acerca destas matérias (criptomoedas ou novas tecnologias financeiras).
É que um dos fundadores destas ferramentas (neste caso da moeda Ethereum - Vitalik Buterin) alertou recentemente para as limitações que estas soluções possuem para dar resposta às solicitações que esta febre nos mercados parece publicitar a seu respeito. Veja-se a seguinte passagem da entrevista (cujo visionamento fortemente aconselho):

"Se se considerar o número de blocos encadeados (blockchain) que hoje podemos processar, a Bitcoin consegue processar menos de três transacções por segundo, e se conseguir chegar a quatro atingiu o seu máximo de capacidade. No caso da Ethereum tem estado a concretizar cinco transacções por segundo, se chegar às seis atinge também o pico de capacidade."

É na constatação destas limitações que os recentes movimentos de preços destes "veículos" me parecem menos saudáveis.
Para não falar de que até os participantes e conhecedores destas novas tecnologias parecem querer ignorar estas palavras.
Mesmo que se considerem as diferenças entre as moedas criptográficas e as tecnologias que as suportam (de que os blocos encadeados - blockchain -, são um exemplo) face aos múltiplos campos de aplicação possíveis, estas palavras de um fundador não devem ser ignoradas. São um aviso importante.

Será interessante seguir os próximos desenvolvimentos.
Para já, parece haver um novo campo de desenvolvimento de soluções que ultrapassa (já!) estas soluções da moda (sejam da Bitcoin, da Ethereum ou Blockchain). A novidade (da novidade!) chama-se Hashgraph e tem "elegâncias" técnicas que em muito parecem suplantar as suas concorrentes (ao nível do registo e gestão dos diferentes protocolos de informação, bem como as melhorias na justiça e segurança na gestão da rede). O seu fundador é Leemon Baird e a sua empresa conta já com centenas de contratos com uniões de crédito nos EUA.

Há muito a aprender e a velocidade dos desenvolvimentos é estonteante e os riscos (bem como as oportunidades!) podem assemelhar-se a outras épocas e febres tecnológicas, mas o futuro passa por aqui. Sem dúvida.

sábado, 18 de novembro de 2017

Master Class Eberhard Schoeneburg

"É urgente desmistificar a Inteligência Artificial"

A página de Schoeneburg possui alguns dados de apresentação e obtive esta referência através de outras leituras. Importa trazê-la à consideração dos leitores, tanto pela ressaca da WebSummit (e dos abusos afectivos e racionais a que fomos sujeitos), como mais especialmente pelo momento que volta a esboçar-se em torno das "novas" tecnologias.

Num período que volta a fazer lembrar o entusiasmo do final da década de noventa acerca das tecnologias, preciso de contemplar, com saudável dose de cepticismo, estas "promessas". Tomando uma perspectiva integrada, tanto dos mercados como das intenções dos agentes políticos (a paixão destes nada inocente, sublinhe-se) da natureza da inteligência artificial, bem como das soluções que dela são complementares. Destacando-se as fintech, termo vulgar para os algoritmos e codificações estruturadas aplicáveis aos serviços bancários, aos seguros ou até aos processos eleitorais. Assim como a sua evolução para o suporte à criação digital de moedas criptográficas.

Não há por aqui, como bem sabem os nossos leitores, qualquer animosidade relativamente às referidas (ou quaisquer outras) soluções tecnológicas.
O interesse aqui é tanto conhecer melhor a natureza das soluções (potencialidades, limitações e riscos), como ir apontando algumas dinâmicas que hão-se desenvolver-se em torno destas indústrias, até de cariz político e ideológico (veja-se a WebSummit).

Por aqui, assumimos a necessidade de realismo. E de continuar a aprender para exercer mais conscientemente as escolhas que teremos pela frente.

Boas reflexões.

sábado, 11 de novembro de 2017

Caixa de Ferramentas



Inauguramos mais uma rubrica aqui no Espectador Interessado. Como indica o título, procuraremos partilhar informação útil e crítica. Com o escopo de enriquecer as escolhas que fazemos.
Atendendo à época que se avizinha, deixamos uma ligação para uma lista analítica de produtos relativamente ao seu impacto na privacidade. Ou melhor, quanto à sua efectiva diminuição.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Radar


A alegria e o optimismo entopem, por estes dias, as ruas de Lisboa. Mas só certas ruas, desengane-se o incauto.
Enquanto são frequentes, preocupantes e reveladores os episódios de eficiência estatal, o nosso primeiro navega, com sucesso e mestria, por entre as originais águas tecnológicas. E aproveita qualquer vento ou boleia para promover as soluções do costume.
"Discutindo" e concluindo pela necessidade de mudar o mundo. Para bem de todos.
Exagero? Veja-se o paternalismo:


sábado, 4 de novembro de 2017

Master Class - Hans-Hermann Hoppe

"Importa escrutinar o pensamento que o politicamente correcto desdenha"


Por razões que não são fáceis de identificar, por vezes, não damos o suficiente destaque às ideias daqueles pensadores que são fundamentais para nós. De certo modo, sinto que isso acontece relativamente a Hans-Hermann Hoppe. Assim, selecciono para a nossa rubrica "Master Class", duas das suas mais recentes intervenções.

A primeira foca-se na determinação consequente dos argumentos e dos passos que deverão estar presentes na consideração de quem problematiza os temas da Liberdade, da Paz e do futuro. Para além disso, Hoppe procede a um esclarecimento e distinção entre os diferentes movimentos e discursos políticos que são, intencionalmente segundo o autor, confundidos com o Libertarianismo. Assim como a distinção cirúrgica e irónica das consequências que resultam de cada um dos principais movimentos nos Estados Unidos e não só (sejam a alt-right ou os diferentes populismos).

A segunda palestra tem uma marca pessoal mais vincada. E é pessoal no sentido em que descreve e enquadra factos vividos na primeira pessoa. Episódios reveladores de que o principal conflito a desenrolar-se nas últimas décadas nas sociedades ocidentais é político, é cultural e tem consequências morais impossíveis de esconder. Evidentes indícios de discriminação (grande chavão para o politicamente correcto, mas apenas face a causas que lhe são queridas), de desvalorização da investigação independente nas academias americanas e mesmo de ostracismo de que Hoppe (e Rothbard) foi alvo.

Uma viagem à condição de quem opta pela independência e radicalidade da sua investigação. Independente, pois não se intimida em buscar as explicações que o poderoso bloco ideológico dominante se esforça por esconder ou atacar. Radical, dado que, pelo escrutínio racional diligente, se buscam as raízes dos problemas e os mais originais rasgos de resposta. Fica aqui a ligação para o fórum que Hoppe e Kinsella dinamizam.
Contra o cânone.

Para nós, esta é a viagem que vale a pena fazer. Mesmo.
Boas reflexões.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O programa de Tom Woods - 1000

"A liberdade de ser inteligente"

Partilhamos com os nossos leitores o programa de celebração dos mil programas de Tom Woods. Não me é possível recomendar mais a audição e o acompanhamento dos programas e do pensamento de Tom Woods e dos seus convidados.
O registo de conversa frontal, irónica e inteligente não tem, para mim, nada que lhe compare. É um bálsamo para pensar, sendo capaz de manter uma relação natural com os patronos e patrocinadores do programa que inspiram todos aqueles que pretendem - de modo independente e crítico - produzir conteúdos e analisar ideias. Por muito polémicas que elas possam ser aos olhos do asfixiante politicamente correcto.
Com introduções de Ron Paul e Hermann Hoppe, entre outros, o programa é imperdível. Uma excelente celebração da palavra e pensamento livres, com muito humor.

Que Woods continue por muitos mais programas, livros e artigos. Quem sabe - até - dando um contributo qualitativo mais directo ao domínio da política. Quem sabe? Será que... alô, Eduardo?



Uma história simples


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Cogitações (9)

Por cá, os curadores de serviço, plenos de soberba e preocupações altruístas, estão determinados em baixar os encargos das famílias com a habitação. E apresentam algumas das suas brilhantes ideias - reduções de impostos e estímulos -, que nada mais são que distorções do mercado e, não há como negar, mais esforço contributivo a prazo.

E estas ideias são apresentadas como grandes contributos para a melhoria das condições de vida das populações. Pois...

Mas não há quem lembre que tal mal - o aumento dos custos com a habitação para as já apertadas famílias - resulta, de entre outras causas, de anos e anos de políticas de incentivo à construção, ao crédito para aquisição e investimento em imobiliário?? Ao que se podem juntar o aumento de procura externa, digamos, pelo aumento da procura turística ou até os programas de atribuição de vistos especiais a quem "invista" (ui, ui) em imobiliário. Tudo isto são distorções do mercado e os curadores sempre evitaram considerar as consequências não intencionadas. Agora apresentam-se como paladinos do altruísmo e vão ajudar as famílias... com mais distorções.

Que bonito círculo.

Noutro sector e a outro nível - o europeu - as inteligências (que convivem muito mal com a crítica e com a liberdade de pensamento, diga-se) que definem as políticas monetárias e financeiras da União Europeia estão a pensar resolver o problema da dívida soberana e do balanço da banca europeia. Como? Criando uma plataforma de obrigações (Euro Bond) com duas grandes categorias (sénior e júnior). Porém, a venda dessas obrigações seria feita com porções conjuntas dessas obrigações (júnior, que rima com junk, misturada com a sénior e mais segura). Onde já vimos isto? Onde?
Na crise de 2008! A solução nada mais é do que um Credit Default Obligation (CDO). O sonho de qualquer malabarista, pois há quem vá ganhar com a manobra, não esqueçamos.
Mas e o resto da sociedade? As famílias? As pessoas?
O que oferecerão estas inteligências a seguir? O que farão para restaurar os estragos que eles mesmos provocam?

Esta gente não aprende.
O pior, é que nós também não. Certo?

sábado, 30 de setembro de 2017

Testemunho histórico-político

"A política da identidade será sempre perdedora"

Partilhamos com os nossos leitores uma longa entrevista a Steve Bannon. Este documento histórico é assaz revelador das mudanças que estão a acontecer no domínio da análise, do exercício e legitimação do poder político.
Se me parece mais rápida a mudança nos Estados Unidos, ela também está a acontecer aqui pela Europa. Mas, atendendo às idiossincrasias europeias neste domínio, poderá revelar-se de um modo mais súbito e, dirão muitos, imprevisto.

Alguns dos temas e problemas analisados são:

- nomes e acções vitais na campanha de eleição de Trump;
- discurso popular ou populista?
- o erro de óptica que a abordagem mediática faz dos males do sistema político americano - atacando alguns agentes (que não encaixem no molde de entorse perceptivo dos media) e defendendo outros (cujas acções não podem, de resto, ser escrutinadas com objectividade);
- as tensões entre o status quo (político, financeiro e económico) e as forças de mudança (populismo e vozes dissonantes);
- as alianças e as obediências no espectro político americano actual;
- os problemas e paradoxos que povoam o partido republicano;
- novos sentidos para as alianças e obediências políticas;
- como se prepararam algumas das armadilhas à campanha de Hillary.

Este é um documento de inegável importância reflexiva. Tanto quanto à frontalidade e clareza na assunção de posições políticas, como da consideração das consequências dessas mesmas posições. Decorre, julgo, das palavras de Bannon o sublinhar de que o domínio da política é necessariamente o domínio da discórdia e do compromisso. Mesmo quando este parece impossível de obter. Recusando-se uma visão pacificadora (asfixiante?), tão intensa quanto paradoxal, do discurso politicamente correcto das democracias ocidentais.
Não será democrático permitir que estas ideias possam ser discutidas e avaliadas publicamente? Sem se recorrer à campanha de difamação, à mentira e ao assassinato de carácter?
Há em mim uma proximidade sentimental e filosófica desta última questão com o presente da situação política espanhola, por força da insistência catalã.
Quando se lêem "análises" destes episódios com títulos "estará tudo louco?", por exemplo, não será isso a inviabilização de uma discussão e de uma análise críticas e livres? Não serão estas análises, precisamente, concretizações de um entorse bem no cerne dos ligamentos democráticos? Num país de pobre tradição de discussão e reflexão críticas, estas análises não serão, precisamente, condicionantes da opinião pública? Em nome, justamente, da salvaguarda da democracia?

Divago?

Importa reflectir. Com sentido crítico.



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Insidiosos avanços civilizacionais


Manobra reveladora da natureza - a verdadeira, insisto - do sistema democrático em que vivemos. Desconheço, de momento, se o executivo já tomou posição definitiva. Ou se é um balão de ensaio que a imprensa aceita em fazer, libertando sussurros da "voz do dono" para aferir da reacção popular.
A proibição de espectáculos desportivos em dia de eleições é um delicioso vislumbre dos avanços civilizacionais que os democratas têm reservados para nós.
Por que razão se fica por esses espectáculos?
Por que razão não se proíbem os almoços em família?

Ainda chegaremos à obrigatoriedade legal de votar.

Avanços...

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Master Class - Ray Dalio

"Haverá mais intervencionismo"

Partilhamos com os nossos leitores uma extensa entrevista a Ray Dalio de Julho passado. São várias as intervenções que Dalio tem feito acerca do presente económico e financeiro. Inclusive, de modo recorrente, tem partilhado as suas reflexões sobre outros temas (ver aqui, entre outros destaco este artigo).

Não resisto a assinalar a hesitação que Dalio demonstra a responder a certas questões. Contrasta, de um modo fundamental, com a determinação e a certeza de políticos e burocratas. Mas estes não arriscam algo de seu. Não têm "skin in the game".

Alguns dos temas e problemas analisados são:

- os ciclos económicos e o crédito - ciclos curtos e longos;
- o crédito e a moeda - aos bancos centrais só resta manipular mais a moeda;
- a história está cheia de exemplos que importa analisar, mas os responsáveis não parecem estar interessados nisso;
- a máquina económica e os seus processos - crédito, moeda e produtividade;
- a Europa (a sul especialmente) está em dificuldades;
- um trabalhador francês, italiano ou espanhol custa o dobro de um trabalhador americano;
- vêm aí mais programas de facilitamento quantitativo (QE) - os bancos centrais não têm margem para, de modo eficaz e consistente, fazer subir as taxas de juro;
- a arte de investir, segundo Dalio;
- cerca de 70% das compras nos mercados bolsistas são recompras de acções pelas próprias companhias;
- os retornos do investimento (em qualquer classe) serão cada vez menores nos próximos anos.

Boas reflexões.


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Citação do Dia (200)

"Estes não são tempos normais. As taxas de juro das obrigações alemãs estão tão baixas que até as maturidades a 30 anos, com taxa de 1,14%, traduzem-se em rendimentos reais negativos.

Retornos livres de risco, de facto."



James Grant, "Almost Daily Grant´s", 30 de Agosto de 2017

Tradução e itálicos da nossa responsabilidade.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Consequências lógicas

Com as primeiras chuvas damo-nos conta da realidade necessária. Daquela que, logicamente, tem de seguir-se quando são tomadas determinadas decisões.
A muitos deve espantar a generalizada subida nos custos associados às contas bancárias (a começar pela DECO, pelos vistos), mas apenas a distração que nos embala durante o Verão ou - quem sabe -, o desconhecimento do complexo sistema e políticas monetárias e financeiras nos pode causar espanto. Então, as taxas de juro vão a zero (ou são negativas) por obra e graça das visões de Draghi, o que até aos bancos coloca em situação desconfortável, e não haveriam os clientes de ver reflectido em si esse desconforto?
Este generalizado "acerto de custos" não é política comercial (de um mercado onde a concorrência deve ser compreendida no seu sentido mais ténue), mas uma resposta à actual conjuntura do sistema bancário e das políticas monetárias e financeiras do BCE.
Foi precisamente disso que me lembrei ao ler os títulos de hoje. E que associei ao seguinte artigo.
Trago à consideração dos leitores parte de um artigo de Charles Gave (Evergreen Gavekal), que traduzi (negritos e adaptações são da minha responsabilidade).
Naturalmente a leitura integral é vivamente recomendada.

"O estrangulamento do dinamismo económico

No mundo actual, aqueles que podem aceder ao crédito para comprar os activos existentes são as grandes corporações com fluxo de caixa positivo (ainda que com um crescimento débil) e os seus accionistas – os ricos. Estas corporações endividam-se para recomprar as suas próprias acções ou outros activos disponíveis, como imobiliário. Isto aumenta o endividamento não produtivo no sistema através destas grandes companhias, ou através de clientes dos bancos de investimento (...), que não poderia existir e prosperar se as taxas estivessem nos 4% ou 5%.

Em contraste, os empresários, aqueles em quem a economia pode contar para construir os activos de amanhã, não conseguem obter capital, pois o sistema bancário considera menos arriscado destinar esse capital a uma General Electric para que esta possa recomprar as suas próprias acções do que emprestar a um lunático com o projecto bizarro de contruir uma nova armadilha para ratos ou um computador quântico, ou qualquer outra coisa de útil. Escusado será dizer que esta combinação de aumento do endividamento financeiro e declínio do investimento produtivo, aumenta muito a vulnerabilidade do trabalhador comum, bem como dos mais pobres quando um abrandamento económico ocorrer.

Em conclusão:
- Baixas taxas de juro não são mais do que uma forma de capitalismo para os amigos (crony capitalism). Quanto mais próximo se estiver do banco central ou do governo, mais lucro é possível concretizar, como bem mostrou Richard Cantillon no séc. XVIII.
- Baixas taxas de juro beneficiam os ricos que são proprietários de activos.
- Baixas taxas de juro conduzem a um declínio na taxa de crescimento estrutural da economia.
- Baixas taxas de juro aumentam muito a fragilidade do sistema através de um aumento generalizado do endividamento nos segmentos da economia que não produzem riqueza.
- Baixas taxas de juro impedem a destruição criativa, em particular a manutenção das companhias que não são saudáveis, encurralando o trabalho e o capital em projectos sem viabilidade económica.
- Tudo isto conduz ao aparecimento dos demagogos.

É difícil imaginar uma política mais desastrosa."


Charles Gave, "Strangulation of enterprise", 25 de Agosto de 2017.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Rádio Espectador Interessado (2)


Um excelente sentido para uma descrição da vertiginosa paixão pelo imediato.
Do que se sente e deseja. De como se vive.

A farsa que é viver segundo o lema: "Tudo. Agora!"

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Master Class - Brent Johnson

"O mundo é dos psicopatas"

Partilhamos com os nossos leitores uma apresentação de Brent Johnson - Santiago Capital.
Brent gere um fundo de investimento e nele mantém uma exposição importante aos metais preciosos, especialmente ao ouro.
A apresentação estabelece, com humor e ironia, o contexto em que o sucesso das políticas económicas e monetárias actual deve ser compreendido.
O que pode perder-se na (pouca) sofisticação dos meios usados, ganha-se seguramente no alargamento de perspectiva.

Alguns dos tópicos abordados são (actualizado):

- as tensões entre o dólar, as taxas de juro e o ouro não são tão claras quanto se quer fazer crer;
- o sistema financeiro tem falhas estruturais;
- o tecto da dívida americana - um tema recorrente;
- o círculo vicioso que a FED vai intensificar quando der início ao "aperto quantitativo" e à normalização do seu balanço;
- a dissonância cognitiva dos vários observadores dos mercados;
- a genialidade e a sabedoria dos psicopatas - um teste à natureza da imagem pública dos banqueiros centrais;
- o sistema de preços e valorizações económicos e financeiros não é credível - consequência não intencionada?;
- a psicologia que não podemos esquecer quando tentamos compreender as acções e discursos dos curadores de serviço - no caso, os participantes na comissão da FED.

Aos leitores apresentam-se as desculpas pelo lapso na primeira edição desta entrada.
A sinopse desta apresentação estava errada e correspondia a outra entrada. Ultrapassado o lapso, que esta apresentação possa ser um bom exercício reflexivo acerca dos eventuais cenários para os próximos seis a dezoito meses. Nas suas dimensões económicas, financeiras e políticas.
Especialmente porque ela desafia o perigoso consenso a que tantos se entregam.

Boas reflexões.


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Radar


Por entre fogos e militares espanhóis a combater os mesmos, por entre as palavras do presidente-animador (doentias especulações de orientação motivacional) espelhadas pelos meios convencionais de informação, não há quem dê por conta disto?
A notícia da Reuters começa por dizer que são os "Estados Nação", mas isto é um balão de ensaio. Só pode.

O título da notícia é prometedor: "União Europeia explora medida de congelamento de contas para prevenir corrida aos bancos"
Assim. E não há quem analise, discuta e se oponha? Mas não estamos a caminho de um paraíso de prosperidade? Para que servem, então, estas medidas?
Se algum leitor tiver acesso ao relatório que o artigo refere, por favor, partilhe na caixa de comentários.
Agradecemos todos.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O reforço de um mundo de animação


Depois dos discursos e encenações desta semana por parte da equipa da FED, o mercado sabe com o que pode contar. Os índices bolsistas continuarão a sua ascensão como paradigmas de uma "economia de sucesso". E os curadores, quais mandarins ilustrados, mantêm a sua máquina de entorse perceptivo.
Lacy Hunt - que por aqui já recebeu a nossa atenção - cita Alan Meltzer acerca dos erros que a FED cometeu, comete e continuará a cometer quando segue os modelos e as ferramentas erradas para cumprir o seu mandato.
Traduzo: "O erro da FED é continuar a basear-se em modelos como a Curva de Phillips... que ignora a influência do papel da moeda, do crédito e dos preços". Esta teimosia, insiste Hunt, impede a FED de seguir tendências mais persistentes na moeda e no crédito, comprometendo o seu próprio papel estratégico no seio das exigentes componentes do seu mandato.

É caso para perguntar se esta gente acredita mesmo na sua poção mágica...

domingo, 16 de julho de 2017

Radar


As recentes manobras de charme de Macron junto dos líderes europeus está a acelerar a concentração. Do projecto europeu. Parece estar em desenvolvimento adiantado a criação de um Fundo Monetário Europeu (concorrente do FMI). Alguns vêem já a hipótese de um verdadeiro Tesouro Europeu.
Pergunto-me: alguém discutiu isto? Houve algum referendo que legitimasse tal aprofundamento político, económico e financeiro?
Ninguém responde.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

China - que poder alternativo?

Selecciono e traduzo uma parte de uma excelente reflexão levada a cabo por Chris do projecto "Capitalist Exploits" que, de Singapura, vai produzindo as suas análises económicas, financeiras e políticas.
Naturalmente, recomendo a leitura integral do artigo.
Importa coligir alguma informação acerca da iniciativa da Nova Rota da Seda que a China está, lenta e consequentemente, a implementar. Tem a sua componente marítima e terrestre e comporta uma amálgama de instituições e parceiros (veja-se aqui).
Aqui pelo Espectador Interessado, há muito que vamos dando conta da extensão e qualidade destes movimentos e iniciativas - aqui, aqui ou aqui.
Os negritos e adaptações são da minha responsabilidade.
Como a China está a aumentar o seu poder global

A China tem ao seu dispor múltiplos modos através dos quais pode projectar o seu poderio económico, melhorar a sua balança comercial e exercer controlo sobre a dívida dos seus parceiros comerciais. Ao fazer uso deles, lentamente, garante uma influência política e económica que se reforça constantemente.
Caso sejam bem sucedidos nos seus intentos com a Nova Rota da Seda [conhecida internacionalmente como One Belt, One Road, daqui em diante referida por OBOR], a China pode esperar mitigar alguns dos seus problemas - que resultam do ciclo doméstico de crédito mal-parado - e, incidentalmente, garantir aquela projecção política e económica.
Os comentadores da iniciativa OBOR parecem dividir-se entre optimistas e cépticos quanto à capacidade da China em alcançar os seus objectivos com tal iniciativa. À partida, a ideia parece simples: a OBOR promete abrir mercados para as exportações chinesas. Mas essa abordagem parece-me simplista e inocente. Quanto mais investigo este tópico, mais concluo que há muito mais por detrás da OBOR do que se pode ver para já. Os chineses são muita coisa, mas não são estultos.
Consideremos alguns dos seus problemas, das suas ambições e a razão pela qual a OBOR é central para o mandato de Xi.

Excesso de capacidade

A China sofre de um excesso de capacidade produtiva e também de um problema interno de dívida no seu sistema bancário. Mas a OBOR pode providenciar os meios para a China diminuir essa dívida e exportar esse excesso de capacidade. Os chineses podem alcançar isso permitindo financiamento a países que estejam, desesperadamente, a necessitar dele – a Grécia encaixa aqui muito bem.

Aliviar a bolha de crédito

Certamente que um elevado nível de crédito não produtivo castiga o crescimento do produto chinês, mas considere-se o seguinte: e se a China transferisse a sua dívida doméstica para o balanço dos seus parceiros na OBOR?
Como?
O governo chinês pode emprestar aos seus parceiros o dinheiro necessário para grandes projectos de infra-estruturas – como, de resto, já estão a fazer. Quando esses projectos estiverem a ser construídos, uma boa parte dessa construção será atribuída a companhias chinesas, dando-lhes a hipótese de exportar o excesso de capacidade e ao mesmo tempo diminuir a bolha de crédito.
A China tem cerca de três triliões de dólares em papel/crédito que pode entregar a troco de poder e influência. Pense-se nisto:
O que é preferível?
Uma pilha de dólares? Com a FED ao leme que tem mostrado, sem ambiguidades, que assim que surjam as dificuldades, abandona o seu papel de referência monetária em prol da segurança e estabilidade política doméstica?

Ou apostar numa iniciativa que dá vantagem política e económica de alcance global?

A arma mais poderosa

domingo, 2 de julho de 2017

Medo do futuro ou antecipar um modo de controlo

Ler aqui

Os curadores estão a assumir uma posição acerca das novas tecnologias financeiras.
Se é uma atenção genuína, isto é, se visa analisar a sua natureza e as suas potencialidades para evitar os erros cometidos no passado e no presente... tenho dúvidas. Muitas.

E repare-se a legenda escolhida para a imagem. Esta atenção à China, pela perspectiva das potencialidades disruptivas é também curiosa. E muito.

O título é delicioso no processo de transferência que faz da atenção aos perigos apenas para o que é novo. Como se as tecnologias e estratégias financeiras dos últimos cem anos não tivessem riscos. E a tomar as palavras de Yellen na semana passada, esta gente julga que não há riscos nenhuns nas "jogadas das mentes brilhantes" dos últimos cem anos.

Está bem, está bem. Acredita quem quiser.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Impostos - um cruzamento


Já Nozick, na sua objecção à "Teoria da Justiça" de Rawls (talvez o "liberal" mais amado por socialistas), se referia a "uma concepção padronizada de justiça" que a respectiva teoria comportava. Essa concepção, dizia Nozick, exigia uma intervenção recorrente e mais intensa por parte do estado para fazer cumprir o segundo princípio (segunda alínea) da justiça de Rawls.
Esse princípio - da igualdade de oportunidades - parecia ignorar que as pessoas, sendo diferentes, ao fim de algum tempo teriam entre si novas diferenças, o que exigiria novas interferências de políticas redistributivas que se financiavam nos recursos de alguns cidadãos.
Ora, essa intervenção parecia aceitar que a esses cidadãos não se reconhecesse o respeito pela sua dignidade e da sua propriedade em prol da satisfação daquele segundo princípio.
Nesse caso, não se vê como pode Rawls negar a visão utilitarista das soluções políticas, ou escapar à acusação de que a sua sociedade justa permitiria uma certa escravatura.

É precisamente neste cruzamento, neste dilema que urge dar espaço à discussão destes temas. O facto (mais do que certo, arrisco) de estas referências causarem sorrisos e (até) estupefacção em alguns leitores é, julgo, o justo sinal do cruzamento em que nos encontramos.

Agradecimento a João Cortez (mais uma vez) pela lembrança. A quem sorri, desafio que tente responder à questão que conclui o artigo de Cortez.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Citação do dia (199)

"A liquidação de um banco cujo valor estava nos milhões de milhões em pleno mercado vigoroso e uma economia a crescer?
Um raro e estranho avistamento, seguramente.

O anúncio de hoje de que o Banco Popular Espanhol SA seria absorvido pelo mais sólido Banco Santander, sob os auspícios do Banco Central Europeu pelo preço de um euro, aviva a memória relativa a Março de 2008, do Bear Stearns e de J.P.Morgan."

James Grant, "Almost Daily Grant´s", 7 de Junho de 2017

Tradução e itálicos da nossa responsabilidade.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O que for preciso. Até quando?


Ao cuidado dos optimistas de serviço.
Passam pelos oráculos as notícias de que o paraíso está aí. E, efectivamente, alguns números são "fortes", "animadores", e por aí fora.
Não esquecer que essa "força", esse "ânimo" tem o pulmão, permitam-me a expressão, do BCE. E a dívida aumentando...

O que acontecerá se o acelerador de liquidez encontrar a parede?

E ninguém pergunta pela justiça (social, tão querida dos curadores de serviço) de tais "apoios"?

sábado, 22 de abril de 2017

As curvas do sonho. Contraplacado. (actualizado)




Pergunto-me pelo fundamento de tanto optimismo dos curadores e das suas hostes.
Surpreende-me a inesperada vitalidade financeira que manifestam tantos municípios da área metropolitana de Lisboa a realizar obra por estes meses.
Assustam-me as mansas (mas mais ruidosas) reivindicações corporativas.

Só quando contemplo estas tabelas compreendo.
São os mágicos de serviço - os tecnocratas dos bancos centrais e seus associados políticos - a dar vida a esta economia colossal. Onde não há critérios de análise objectiva, não há independência dos seus agentes, onde o (suposto) regulador está investido nas entidades que é suposto regular.
Nada disto passa de uma economia de contraplacado. De uma economia sonhada, de contraplacado bem pintado e promissor. Mas que não pode resistir ao mais pequeno (mas sério) desafio.

Importa não esquecer, todavia, é que o BCE terá atingido a margem máxima de compra de títulos portugueses. O mesmo está prestes a acontecer a outros países europeus - como a Itália. Cuidado com ela. Mais preocupante que a Grécia.

Por muito sérios que possam ser os resultados das eleições francesas, quem vencer terá de enfrentar estas condicionantes. Elas são inescusáveis.
Para onde iremos a seguir?

Actualização: O Banco Central Europeu acaba de avisar que está preparado para a possível turbulência após as eleições em França - "está preparado para injectar dinheiro nos bancos franceses".
Ver aqui

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Master Class - Steven Bregman

"Investimento indexado - materializar a bolha"

Partilhamos com os nossos leitores uma apresentação de Steven Bregman no exclusivo ciclo de Conferências que James Grant conduz duas vezes por ano. Esta intervenção de Bregman ocorreu em Outubro do ano passado.
Para a melhor compreensão da informação apresentada será importante a análise dos diapositivos.

Alguns dos tópicos abordados são:
- duas gerações de investidores, dois mundos diferentes - duas tendências nas taxas de juro;
- a evolução na natureza e propósito dos fundos de investimento - a indexação (ETF´s);
- que suportes lógicos existem para as presentes valorizações (índices e empresas)?;
- as inovações nas opções de investimento traduzem-se numa compressão da volatilidade, mas estarão preparadas para mudanças inevitáveis (aumento das taxas de juro, por exemplo)?
- forçar estabilidade é apostar em mudanças drásticas e gravosas do ponto de vista financeiro, económico e social.

As comparações estabelecidas entre diferentes valorizações, os riscos potenciais e as intervenções dos bancos centrais são esclarecedoras. Assustadoramente esclarecedoras.
As perguntas ecoam. Haverá mercado livre? Haverá descoberta de preços?
Os bancos centrais, que têm fundos (aparentemente) ilimitados e não têm "skin in the game" (Nassim Taleb dixit), tornam-se accionistas de empresas, isso é sinal de um mercado livre?

Não posso deixar de considerar premonitória a referência inicial ao Titanic.

Boas reflexões.

Ver aqui

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Citação do Dia (198)

"A ´tirania` de Pisístrato fazia parte de um movimento mais alargado que se estava a desenvolver nas cidades comercialmente mais activas da Grécia do século sexto, para substituir o poder feudal de uma aristocracia proprietária pelo domínio político de uma classe média temporariamente aliada aos pobres. Tais ditaduras brotavam tanto de uma patológica concentração da riqueza, como de uma incapacidade dos ricos em alcançar um compromisso.

Forçados a escolher, o pobres - como os ricos - amam o dinheiro mais do que a liberdade política. E a única liberdade política capaz de perdurar é aquela que é preparada e cuidada para evitar que os ricos privem os pobres pela capacidade ou pela subtileza, e os pobres de roubarem os ricos pela violência ou pelos votos.

Assim, o caminho para o poder nas cidades comerciais gregas era simples: atacar a aristocracia, defender os pobres e alcançar um entendimento com a classe média. Chegado ao poder, o ditador abolia as dívidas e créditos, confiscava grandes propriedades, lançava impostos aos ricos para financiar obras públicas ou redistribuía a riqueza excessivamente concentrada. Depois de ganhar o consentimento das massas através de tais medidas, importava garantir o apoio da comunidade dos negócios promovendo o comércio, a emissão de moeda, a assinatura de tratados comerciais, ou aumentando o prestígio da burguesia.

Forçadas a depender da popularidade mais do que do poder hereditário, as ditaduras, na sua maior parte, mantiveram-se afastadas de guerras, suportavam a religião, mantinham a ordem, promoviam a moralidade, favoreciam um estatuto elevado para as mulheres, encorajavam as artes e despendiam avultados recursos a aprimorar as suas cidades.
E faziam isto, em muitos casos, enquanto mantinham procedimentos de governo popular de maneira a que, mesmo debaixo de um governo despótico, as pessoas aprendessem as maneiras da liberdade."


Will Durant, "The Story of Civilization II, The Life of Greece", pp. 122, 123

Tradução e itálicos da nossa responsabilidade.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Cogitações (8)

Ainda há quem duvide da selectividade e da abordagem qualitativa do jornalismo. Tenho por clara e confirmada a inclinação na descrição, na análise e no comentário (muitas vezes confundidos).

Alguém duvida que, se os autores de semelhante ideia fossem outros, de outro quadrante político (conhecido ou não), a reserva moral que a opinião publicada ainda julga ser se manteria serena?
Estou a imaginar os títulos: "Populismo cresce em Portugal" ou "Trump, Farage e Le Pen têm seguidores em Portugal".

Assim como assim, é apenas mais um fim de semana de activismo político. Nada de mais.

Podemos notar, todavia, que o problema europeu não desapareceu. Como se pretendia mostrar com os recentes festejos dos 60 anos.
Ironias.

terça-feira, 7 de março de 2017

Terapia de choque ou uma conversa entre cavalheiros?

"Haverá uma maldição financeira?"

No vídeo que aqui partilhamos, muitos são os detalhes que importa sublinhar. Seja o nível intelectual, a cordialidade e a actualidade dos temas aqui tratados.

O anfitrião Ross Ashcroft (realizador do premiado "Os Quatros Cavaleiros do Apocalipse") dirige, com um ritmo, com uma qualidade e um tacto raro no jornalismo económico, uma entrevista/debate acerca da possibilidade da existência de uma maldição financeira. Os convidados são o académico Richard Werner (autor da expressão Quantitative Easing e já aqui lhe demos destaque) e David Buik, comentador económico londrino.

A verdadeira natureza do negócio bancário das últimas décadas é aqui explicada com uma facilidade estonteante. O papel do crédito e da moeda no contexto das necessidades produtivas do mercado e as suas consequências nas crescentes desigualdades sociais são aqui relacionadas de um modo muito esclarecedor.

A rematar uma consideração histórica: a cidade de Londres não é uma jurisdição britânica. Não faz parte do Reino Unido. A rainha tem de pedir autorização para lá se deslocar.

Imperdível para perspectivar o presente.



Por que haveremos de pagar tão caro por um "serviço de intermediação que funciona, ainda por cima, em circuito fechado"?
Uma pérola, certo?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sobredeterminação das Narrativas oficiais

"Sistema de alianças e propaganda"

Partilhamos com os nossos leitores uma entrevista a Oana Lungescu (conselheira da NATO para as políticas de comunicação e presença nas plataformas sociais, sim a guerra também já passa por elas) levada a cabo por Jonathan Eyal (Royal United Services Institute - RUSI).
Não deverá espantar-nos que uma conselheira para a área da comunicação social seja entrevistada para dar conta da natureza e condição do sistema de alianças da NATO. É precisamente no plano da mensagem e da sua divulgação que a guerra para já se desenvolve.

Todo o desenvolvimento e desfecho da eleição de Trump (mas também do Brexit, não esqueçamos) deve ser considerado um caso exemplar para compreender a dimensão e a natureza das tensões e dos conflitos que se desenvolvem por estes tempos. A guerra, por agora, está focada na mensagem, na iniciativa de orientar a narrativa acerca dos eventos mais relevantes da história e da política internacional.

A luta pela interpretação destes eventos não é nova, é certo. Mas os meios para disputar a narrativa determinada unilateralmente multiplicaram-se. Seja pelo reforço das posições de alguns gigantes - China e Rússia -, seja pela renovada importância de que alguns (pequenos) actores se vêem investidos. A tensão entre os diferentes interesses das grandes potências atingiu uma intensidade tal que estes pequenos actores podem ser decisivos na determinação da próxima peça de dominó que há-de cair.

Não podemos sublinhar mais a importância de perceber a que ponto chega o desespero em controlar a interpretação dos eventos (vejam-se as mudanças legislativas para punir a "dissidência" em Inglaterra). Esta entrevista é, julgamos, paradigmática desse receio. A decadência que se tornou evidente nos meios de comunicação convencionais, especialmente a propósito de Trump, elevou a constatação do senso comum a verdadeira função que esses meios ocupavam nas respetivas máquinas de propaganda.

E o que Lungescu faz nesta entrevista? Dar orientações para quem as quer ouvir de como "falar verdade". Assim como afirmar a frescura e a vitalidade do sistema de alianças e informações da NATO, cujo modo se pode aferir pelas recentes demonstrações de prontidão por essa Europa fora (veja-se na Lituânia, há dias). Chega a ser deliciosa a candura do lema "responder à agressão russa" presente nestas manobras. Mas como muitas coisas deliciosas, mostram-se deliciosamente perigosas.




É suposto estarmos descansados, não é?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Cogitações (7)

Ouvem-se por aí algumas das últimas conclusões a que chegou o INFARMED a propósito dos resultados de (e cito) "tratamentos inovadores para a hepatite C só possíveis pela concorrência entre produtores".

Ouve-se mas não se acredita. Será possível que o politicamente correto duvide que a abolição de limitações à entrada de novos operadores traz benefícios? Em particular para quem mais precisa deles?

Este profundo consenso não olha à sua volta e não vê que os sectores onde se diminuem as limitações à actividade económica são aqueles onde os custos mais baixam e a qualidade dos produtos sobe?

Se isto já acontece, entre outros, com telefones móveis, roupa desportiva ou (vejam lá!!) com medicamentos inovadores para tratamento de doenças, por que espera o politicamente correto? Em nome de que coerência (filosófica ou política) podem manter-se os constrangimentos à concorrência seja em que sector for?

Pior cego...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Radar

Ainda se hão-de fazer sentir as verdadeiras consequências de uma economia de papel ao longo dos próximos anos. O caso indiano que por aqui temos acompanhado, é exemplar de algumas delas. Se lhes associarmos a desmaterialização monetária em curso (está a começar na Europa, ver aqui) perceberemos a magnitude das mudanças que vêm ao nosso encontro.
Entretanto, um ex-governador do Banco Central Indiano Venugopal Reddy concluiu em recente discurso que, e cito: "o dólar é um activo seguro, mas o ouro é ainda mais seguro. (...) O ouro é uma forma de poupança ou de reserva de valor que compete com a moeda oficial".
A sinceridade fica-lhes tão bem.
Ver notícia aqui. Se algum leitor encontrar o livro branco onde se faz a exposição mais extensa destas ideias e o queira partilhar connosco, deixo aqui, antecipadamente, o nosso agradecimento.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Cogitações (6)

O primeiro-ministro visita a Índia por estes dias. Pouca atenção pude dar a tal facto, mas não posso deixar de notar, não obstante a pequena pesquisa que fiz, a ausência de tratamento jornalístico, pelos meios de comunicação portugueses, da situação económica e social indiana depois da decisão de Modi de banir 87% da massa monetária em circulação.

Pude ver uma reportagem acerca de um modelo de camisa muito célebre, pois é igual ao que Modi usa. Uma outra envolvia a camisola da selecção portuguesa de futebol. E, claro, várias digressões acerca das raízes familiares do pm português.
Alguma referência à actualidade da economia e sociedade indianas? Alguma referência a isto? A isto? Ou ainda a isto?
Alguma análise ao recrudescimento do nacionalismo indiano? Manobra de aparente contenção do Paquistão pela hostilidade, que Modi tão perigosamente conduz?

Assim vai a narrativa em mais um acto ensaiado. E ainda há quem se questione por que razões enfrenta profunda crise o serviço jornalístico? Este "lapso" é apenas uma centelha brilhante da impossibilidade da neutralidade jornalística e da sua subserviência ao poder político.
E não é apenas pelos EUA ou a propósito de Trump e da sua eleição.
Fake News? É isto. Fabricadas e transmitidas pelos meios de comunicação convencionais, esses "guardiões da verdade", essas soberbas "instituições vigilantes dos agentes do poder"...

domingo, 8 de janeiro de 2017

Citação do Dia (196)

Party Hardy ou Festa Rija

(...)Os fundos de pensões ou já estão em incumprimento ou precisam de encontrar financiamento de qualquer maneira e a maneira como o estão a fazer é procurando financiar-se com mais dívida e a assumir mais risco em investimentos bolsistas.
Um ponto preocupante que não me canso de sublinhar é o seguinte: os investidores estão a conduzir a valorizações de activos para que entidades que não enfrentam consequências pessoais por pagarem excessivamente os possam comprar: os bancos centrais e as próprias empresas a recomprar os seus títulos."
Northman Trader, "2016 Market Review: Party Hardy".

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Balanço e Contas

Alguns balanços


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Fonte: Visual Capitalist.

Destaca-se a comparação com os índices que surgem na base da tabela. Quem lê os meios convencionais nem percebe tal subtileza.

Adenda: Anexamos mais umas tabelas para completar a análise (fonte)



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